“Campinas já está entre os 10 maiores PIBs do Brasil”. Assim foi a manchete de hoje do jornal Correio Popular, diário mais importante da cidade. O foco da reportagem é sobre a expansão da economia no setor de serviços, informação muito salutar para todos aqueles que vivem em Campinas. A meu ver, Campinas não é apenas uma cidade de destaque por ter um pólo econômico promissor. A cidade é referência em muitas áreas: da excelência da educação superior cujo exemplo maior é a Unicamp aos tratamentos inovadores na área da saúde pública, como o Boldrini.
Campinas hoje às 12h45min. Com os vidros do meu carro completamente abertos, numa conversa cotidiana e distraída com a minha mãe e a espera da abertura do semáforo, eis que sou violentamente abordada por um sujeito que exige meus pertences. Numa fração de segundos, olho para ele, que quase me beija, tamanha era a sua ansiedade. “Acabei de sair da cadeia, tenho AIDS, estou armado. Fique quieta. Me passa tudo o que vocês tiverem. Quero o celular. Vai, vai logo. Passa tudo!” Tentando manter-me calma, peço que minha mãe abra a bolsa. Pego o celular dela. Passo para ele. Ele exige o dinheiro. Ela oferece R$50,00. Ele diz: “Quero tudo. Vocês estão em duas. Cadê a outra bolsa?”
Nessa hora me vi sem saída. O que fazer? Pegar a minha bolsa com todos os meus pertences de dinheiro a cartão de crédito ou exigir que ele me mostrasse a sua arma? Afinal de contas, o discurso dele soou-me como senso comum. Sinceramente, não acredito que ele estivesse armado. Mas arriscaria a minha vida e a da minha mãe para exigir o meu direito de não entregar os meus pertences? Ainda sob essa fração de segundos, que parece uma eternidade enquanto o sinal verde não aponta à sua frente e você possa seguir – viva ou não – depende das circunstâncias, pedi que minha mãe entregasse sua carteira de dinheiro. Ela sutilmente hesitava. Entreguei-lhe a carteira com R$90,00. Ainda tive a frieza, sanidade, ou seja lá que nome se dê a isso, de dizer-lhe: “É tudo o que temos”. O sinal abriu. Partimos.
Gélidas. Tensas. Nervosas. Apavoradas. Mas também aliviadas por não ter acontecido coisa bem pior conosco.
Meu senso de justiça e a minha consciência cidadã me puseram à prova. Fui ao 13° DP fazer B.O . Eis que a investigadora me diz. “Ih, Juliana, seu caso é o mais corriqueiro por aqui. Não imaginas o que acontece todos os dias! Esse Cambuí...” Detalhe: o Cambuí é um dos bairros mais nobres da cidade. Um dos mais prósperos economicamente. Coincidentemente um dos mais violentos também. No Distrito Policial, sou encaminhada para o reconhecimento do sujeito. Eu reconheceria o sujeito que me assaltou sem maiores pudores? Sento em frente ao investigador. Ele me mostra dezenas de fotos de “suspeitos.” Reconheço um que está sempre pelas ruas do centro. Vejo meninos bem vestidos. Vejo mulheres. Mas a maioria deles eram homens, negros entre 20 e 35 anos. Eis que reconheço não o sujeito que me assaltou – na faixa de 25 a 30 anos -, mulato claro, magro, de cabelos lisos e bem vestido. Eis que reconheço um dos graves problemas brasileiros que é a Mãe da violência urbana: a péssima distribuição de renda desse país, que transpassa outra questão de ordem social: a marginalização do negro, do pobre, a falta de educação da nossa sociedade e, sobretudo, a corrupção dos órgãos públicos que deveriam nos proteger. Durante a conversa com o investigador, ele diz: “Olha Senhora, sei que é duro ouvir isso de um policial, mas entre os dias 18 de Dezembro e 4 de Janeiro ninguém deveria sair de casa. Eles estão à solta! É a saidinha...” referindo-se ao indulto de Natal. Atônita com aquela posição questionei: “E a polícia, o que pode fazer? O que me adianta estar aqui a reconhecê-lo?” , “Iremos averiguar o histórico do ladrão”, respondeu com a maior tranquillidade.
Pois é, diante de tantos absurdos refleti sobre quem são os protagonistas dessa História. Somos todos nós. Há luta pela igualdade na prática cidadã. Hoje vi que por mais injusta que seja a nossa distribuição de renda ela acontece de todas as formas que lhe cabe: pelas políticas públicas, pela solidariedade do terceiro setor com Ongs responsáveis e conscientes de seu papel ou pela força da violência urbana. Diante disso, cabe a nós escolhermos o caminho mais ético. Não há vítimas.
18.12.09
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2 comentários:
Oi Juliana,
este registro me tocou ainda mais que aqueles de nossa área de estudos, porque tenho uma filha que mora em Campinas, com a família, médica, e é triste saber que essa violência se espalhou por quase todo o país.
Ainda bem que você e sua mãe escaparam ilesas (ou com poucos danos).
Um abraço,
Aníbal
Caro Aníbal,
Tens toda razão. É triste mesmo assistir e viver cenas como esta. O que fica? Cabe a nós todos melhorarmos a complexidade da vida urbana da qual fazemos parte.
Para mim, a violência se retribui com a prática da cidadania pacífica. Só assim geraremos menos violência.
Abraços!
Feliz 2010!!!
Juliana
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