18.12.09

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI sob o olhar libertário de Salvador Dalí

Apesar de a 'História do Silêncio' ter seus interstícios fundamentais para nos contar muito sobre a História da Represessão e dos Vencidos, não me posso mais calar. Já não me basta olhar e refletir na liberdade infinita do meu pensamento.


                                                                 
Salvador Dalí.

A liberdade de expressão extrapolou a sua própria garganta e exige que lutemos por ela. Afinal, todos nós somos uma parte dela. Uno. Cada um na sua unimultiplicidade faz de sua arte particular o caminho para o encontro de si próprio vigente no Todo. No Cosmos da sociedade humana que se propõe renovar valores. No início do Século XX, Dalí colocava à público o seu olhar surrealista. Era a sua arte que se congratulava com a liberdade do olhar. Era o poder da sua voz politicamente demanrcada contra a guerra pelo uso revolucionário da tinta, pelo olhar revolucionário que impunha novos paradigmas. "Por onde contestaremos os horrores da guerra?" Eis a indagação nada digestiva que os modernistas europeus fizeram e propuseram aos sobreviventes. Foram  vanguardistas.
"O desejo de sobreviver e o medo da morte são sentimentos artísticos", já dizia Dali. O 'curto século XX', como apregoa Hobsbawm, nos deixa legados imprescindíveis.


Nossa voz é livre.

***
"Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.

Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
Com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!"
(No Caminho com Maiakóvski.  Eduardo Alves da Costa)

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