9.12.09

A voz


        Temos a consciência de que a nossa voz é um instrumento poderoso de expressão e cidadania, que nos individualiza e nos coloca frente a frente com o que somos? Como utilizamos a nossa voz nas lutas cotidianas? O pensador Italo Calvino nos convida a uma interessante reflexão:
"...Aquela voz certamente vem de uma pessoa única, inimitável como qualquer pessoa, porém uma voz não é uma pessoa, é algo de suspenso no ar, destacado da solidez das coisas. Também a voz é única e inimitável, mas talvez num outro modo diferente da pessoa: poderiam voz e pessoa não se parecer. Ou então assemelhar-se de um modo secreto, que não se vê a primeira vista: a voz poderia ser o equivalente que a pessoa tem de mais oculto e de mais veradeiro. É um você próprio sem corpo que escuta aquela voz sem corpo? Então que você a escute de fato, relembre ou a imagine, não faz diferença.
Contudo, você quer que seja o seu próprio ouvido a ouvir aquela voz, portanto o que o atrai   não é somente uma  lembrança ou uma fantasia mas a vibração de uma garganta de carne. Uma voz significa isso: existe uma pessoa viva, tórax, sentimentos, que pressiona no ar a voz diferente de todas as outras vozes. Uma voz põe em jogo a úvula, a saliva, a infância, a pátina da existência vivida, as intenções da mente, o prazer de dar uma forma própria às ondas sonoras. O que o atrai é o prazer que esta voz põe na existencia - na existência como voz -, mas esse prazer o conduz a imaginar o modo como a pessoa poderia ser diferente de qualquer outra tanto quanto é diferente a voz..."
(Italo Calvino. Sob o Sol - Jaguar. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p.79)

3 comentários:

Vivien Morgato : disse...

Espero que vc goste da blogosfera, ela é múltipla e interessante.
Beijos.

Unknown disse...

Outra coisa; adoro Calvino.;0)

Juliana Gesuelli Meirelles disse...

Oi, Vi!Também adoro Calvino!! Espero mesmo mergulhar na blogosfera. Vamos trocar boas impressões! Bjs